Em dezembro de 2022, escrevi uma carta que só poderia ser lida por mim no final deste ano. A ideia veio da minha psicóloga. Ela disse que era uma boa atividade para permitir que, a cada ano, avaliemos o nosso progresso. Dentro da carta, deveria haver metas para o ano seguinte, coisas que desejamos alcançar ou que gostaríamos que mudasse. Esses objetivos deveriam estar colocados de forma bem clara, contendo a maneira na qual seriam alcançados e as datas previstas para serem concluídos. Porém, lendo minha carta agora, percebi que não escrevi muito sobre metas e muito menos sobre os caminhos específicos para conseguir qualquer coisa.
O título do texto era bem filosófico, no jeitinho de alguém que se leva bem a sério: Carta de um homem falho. As três páginas se centravam em torno da minha preocupação em admitir que sou alguém com fraquezas e defeitos e que isso não é, necessariamente, algo ruim, que deveria causar vergonha ou autocondenação. O texto também guardava espaço para o reconhecimento, eu acredito que justo, de que eu tinha avançado mais naquele ano do que nos anteriores a ele. Frequentemente eu fazia alusão a minha metáfora favorita: enxergar o desenvolvimento da minha vida como uma viagem de navio, do modo que eu seja o capitão de uma expedição que descobre terras distantes e atravessa oceanos ora calmos, ora turbulentos.
A Grande Onda de Kanagawa (The Great Wave off Kanagawa) - Katsushika Hokusai
Lendo toda a carta agora, estaria mentindo se dissesse que aceitei, de forma totalmente plena e madura, tudo aquilo que meu eu de 2022 pediu para que eu acatasse. Ainda estou apegado a esse tal desejo milagroso por produtividade, assim como muitas pessoas também estão. Não parei de me distrair com questões que estão fora do meu controle; na verdade, em dias difíceis, é exatamente nelas em que me afundo. Continuo com problemas em descobrir quais são os meus valores internos, os motivos que me levam a decidir uma coisa no lugar da outra, as crenças escondidas por trás dos comportamentos que eu faço mesmo quando sei que são ruins.
Apesar dos objetivos incompletos e não cumpridos, 2023 ainda foi o melhor ano da minha vida, embora também tenha sido o ano que eu tenha chorado mais. Não acredito que isso seja um mero acaso. Aliás, ao contrário do senso comum, acredito que foi um ano incrível exatamente porque me permiti ser mais emotivo.
Chorar é o maior ato de acolhimento que alguém pode ter com si próprio. Por muito tempo, eu nem ao menos admitia soltar todo meu peso em lágrimas. Cair aos prantos, estar de baixa guarda, não deveria ser motivo de humilhação. Hoje em dia, para nós, é opressivo até ser gente, pessoas de carne e osso, com sentimentos e preocupações. Fazemos de tudo para deixarmos nossa condição ridícula de seres humanos para podermos chegar lá – um lá que que nunca existiu, mas que todos querem alcançar.
Para mim, o que faltou foi entender que não existe essa linha de chegada. Vivemos apenas para aprender a viver. Não existe caminho para perfeição. Não há um estágio final de desenvolvimento pessoal que somente pode ser desfrutado pelos mais esforçados de nós. Somos um pacote de angústias, medos e traumas, misturados com sensibilidades, virtudes e potenciais escondidos a serem despertados. Até o último suspiro seremos esse depósito de contradições e não há nada de lamentável nisso; o que pode ser admirado em alguém não pode ser distanciado dos seus defeitos. Acredito que o choro serve para nos lembrar de que somos apenas isso: seres falhos.
Escreverei minha carta para 2024, dessa vez consciente de todos os aprendizados deste ano. Para o próximo ano, decidi que prefiro navegar por um oceano formado por minhas lágrimas. Assim sempre terei a certeza de que velejarei por cima das águas que mais conheço.


