Queria escrever uma crônica sobre “orgulho”, mas sempre que começava o primeiro parágrafo, sentia como se não estivesse dizendo nada de novo. Vinha até mim a sensação de que já tinha falado tudo o que se tinha para falar. Tentei ler textos de outros cronistas para me inspirar, mas não surgia ideias inovadoras, só repetecos. Nada de novo, de novo. Obviamente, não poderia aceitar uma situação deprimente como essa. Vinte e dois anos e já estou esgotado?
Então decidi colocar minhas crônicas para serem avaliadas pelo olhar metódico e supostamente crítico do ChatGPT. Pensei que assim poderia surgir algo. Quando se trata de questões criativas, evito ao máximo utilizar essa ferramenta preguiçosa. Porém, confesso que fiquei curioso para ver o que ela teria a dizer sobre mim. Como se quisesse retomar minha honra, escrevi um comando simples para a máquina. “Me diz o que esse Eduardo Gomes, escritor, tem de melhor”. De início, a resposta foi boa.
“A escrita de Eduardo Gomes se destaca principalmente por como ele consegue unir o trivial ao profundo, sempre mantendo um tom acessível e pessoal”.
Feedback excelente, ChatGPT!
“Os textos de Eduardo Gomes giram, em grande parte, em torno de alguns eixos recorrentes — o olhar sobre o cotidiano, o valor das pequenas coisas, a dimensão afetiva das relações e reflexões existenciais — e isso pode, sim, criar uma sensação de repetição temática”.
Repetição temática!? Quem você pensa que é para dizer que eu sou repetitivo!?
Por algum tempo, fiquei matutando sobre o julgamento dessa burrice artificial. A princípio, fui completamente contra a opinião dela – se é que podemos classificar o que ela diz como opinião. O que tem de mais interessante na vida além do valor das pequenas coisas, a dimensão afetiva das relações e reflexões existenciais? Há, por acaso, algum assunto mais importante para tratar que esses?
Com o passar do tempo, e com esforço ativo para abrir minha mente para a crítica, percebi que o Chat tinha um ponto. Leia “Uma Coisa Ou Outra”, “Tommy”, “Íris” ou “Pedras no Meio do Caminho” e encontrará uma epifania ou um desejo por mudança e por valorizar a vida. Infelizmente, é verdade que eu trato sobre os mesmos assuntos. Isso não apenas nas crônicas, mas nos poemas, nas conversas com amigos, nos pensamentos íntimos que me afligem em um domingo à noite. Comecei a pensar de onde surgiu esse problema – e se ele era um problema.
Eu não sei quando foi que descobri que era teimoso, mas provavelmente aconteceu durante um almoço de família. Cresci na convivência diária de uma avó orgulhosa. A dona Semíramis costumava a resmungar sobre a comida, sobre as pessoas, sobre o clima, sobre as novelas e, particularmente, sobre mim. Caso ela estivesse errada... bem, ela jamais estaria errada, então não sei o que ela faria nesse caso. Apesar do estresse cotidiano, ela era minha avó e sempre devemos fazer concessões para os mais velhos.
Talvez meu orgulho venha daí, talvez não. Pode ter sido herdado do meu pai, de quem eu jamais vi uma opinião ser retirada mesmo quando confrontada pelo mais forte dos argumentos. De qualquer forma, posso atestar que nunca fui uma pessoa desistente. Carrego a teimosia na vida e nas crônicas, como se estivesse em um relacionamento tóxico comigo mesmo. A persistência te leva para o céu e para o inferno, traz glória e culpa. A culpa, minha nossa, esse é certamente o pior dos orgulhos.
Está aí um assunto para crônica, a culpa! Eu nunca falei sobre esse sentimento antes. Vamos inovar e falar sobre culpa? Mas agora é tarde, já ocupei muitas linhas aqui. Que arrependimento, perdi tanto tempo!
O Chat disse que eu frequentemente tento dar lições de moral para o leitor no final das crônicas, o que também poderia ser, por vezes, repetitivo. Logo, não vou dar lição de moral nenhuma para vocês dessa vez. Essa crônica não tem quaisquer conclusões para serem tiradas. Se quiser continuar com suas teimosias, pois então continue. Eu certamente não abrirei mão das minhas tão facilmente.
Essa crônica vai acabar nesse parágrafo, então. Minha reflexão se esgotou tão rapidamente quanto começou. Não cheguei a lugar nenhum. Queria escrever uma crônica sobre “orgulho”, mas sempre que tentava terminar, sentia como se não estivesse dizendo nada de novo.
Pois bem, que se dane a novidade!


