Para quê?
Um desabafo? Uma crônica? Uma historinha de três irmãos brigando? Nem eu sei o que é isso que escrevi
É difícil lidar com as minhas personalidades.
Temos a primeira, o jovem adulto eufórico, que podemos dizer que é o irmão do meio. Esse cara quer compensar pela falta de experiências na adolescência indo "curtir a vida". Quer ir em festas, conhecer lugares novos, pessoas novas, e ficar saindo o tempo todo.
A segunda, o criador ambicioso, o irmão mais velho chato, que quer escrever livros, crônicas e posts. Ele quer estudar, ler livros difíceis e ser produtivo o dia inteiro. Se eu estou jogando videogame, esse cara começa a encher meu saco por eu não estar fazendo nada de "útil".
Também há uma terceira personalidade, o irmão mais novo birrento, o cara que não quer fazer nada que requeira o mínimo de esforço. Passa o dia assistindo os reels de cachorrinhos no Instagram e vendo vídeos aleatórios do YouTube. Sempre que um de seus irmãos quer fazer algo diferente, esse cara pergunta "Para quê?". Quando é respondido com uma explicação justa e plausível, ele responde com um simples, horrendo e tenebroso "Nhe".
O irmão mais velho chato está lendo um livro.
— Meu Deus, esse diálogo é muito bom! — diz ele. — Devo estar chegando no clímax dessa história. Tem tanto que aprendi com esse livro que poderia me inspirar para criar tramas melhores. Assim que terminar, vou escrever mais um capítulo.
— Para quê? — questiona o irmão mais novo.
— Como assim “Para quê”? — retruca o irmão mais velho. — Você é escritor, seu maluco! Seu trabalho é literalmente escrever!
— Nhe — conclui o birrento, e fim de papo.
O jovem adulto eufórico está em uma festa.
— Aquela garota é bonitinha — reflete ele. — Já teve troca de olhares, talvez ela esteja interessada. Deveria chegar nela, vai que dá certo. E se não der, é alguma experiência que eu ganho para as próximas tentativas, não é?
— Para quê? — interroga o irmão mais novo.
— Como assim “Para quê”? — contesta o jovem adulto eufórico. — Você tem vinte anos! Você tem que viver, quebrar a cara, ter experiências, sair e ficar com pessoas. É assim que funciona!
— Nhe — finaliza o birrento, acabando com qualquer chance que eu pudesse ter.
Porém, o birrento não é de todo mal. Esse ano está bem agitado para mim, e esse cara serve como um “nhenômetro”, para que eu saiba o momento de parar quieto e respirar um pouco. O problema é que sinto que meu nhenômetro está meio quebrado. Como vocês puderam ver nos exemplos – que foram, obviamente, fictícios -, muitas vezes eu fico “nhe” quando não deveria ficar “nhe”. Desse jeito, eu não consigo nem relaxar, nem trabalhar direito. Conseguem me entender?
Se eu encho a minha agenda de atividades físicas, estudo, escrita e leitura, o jovem adulto eufórico fica angustiado com a minha falta de liberdade e relaxamento.
Se eu estiver saindo demais, dormindo tarde, comendo besteiras e me divertindo em excesso, o criador ambicioso começa a me irritar, como um coach motivacional dizendo que estou “perdendo tempo”.
Nessa disputa, os dois perdem e o “nhe” sai vitorioso. “Para quê?” acima de tudo, reels de cachorrinho acima de todos.
Só que andei chegando a algumas conclusões quanto a convivência desses irmãos.
Apenas agendas lotadas de tarefas ou festas até às cinco da manhã não funcionam comigo.
Passar o dia sem fazer nada? Nem pensar também!
Não nasci para extremos. Nem introvertido, nem extrovertido. Nem sozinho, nem acompanhado. Nem estudioso, nem festeiro. Nem relaxado demais, nem esforçado de menos.
Às vezes, é difícil estar no meio, buscando o equilíbrio, a moderação. Sentimos que nada deve ser sacrificado, que tudo deve ser experienciado. Contudo, com essa busca por viver tudo, ando sentindo que estou perdendo um pouco de cada.
Mas sei que é apenas uma fase. No final, irmãos sempre se ajeitam.
O quão irônico seria perder a vida desejando vivê-la.


