Eram nove da manhã de um sábado de carnaval e eu estava indo para a piscina nadar. Esse ano eu fui a apenas um bloco – só depois da academia, é claro – para não ser careta demais. Não teve after em lugar nenhum e eu fui dormir às nove da noite porque a bebida já tinha me deixado com dor de cabeça.
Não posso evitar, gosto de me manter na rotina, mesmo em tempos de folia. Sou um idoso no corpo de um jovem de vinte anos. Antes de sair, eu já tinha tomado um café da manhã bem completo, um banho frio e passeado com meu cachorro. Ritual matinal com direito a meditação guiada às 7h30 para me manter no tempo presente. Agora, a próxima tarefa na agenda era movimentar meu corpo.
Philosopher in Meditation - Rembrandt
Estava iniciando meu trajeto quando ele apareceu para impedir meus planos.
Não sei se o leitor sabe, mas a minha popularidade com cachorros é um assunto estudado dentro da comunidade científica. Principalmente a paixão que os caninos têm copelainha perna. Enquanto o Tom, meu yorkshire da altura de uma tartaruga, com frequência se esquece de que foi castrado e fica sarrando a minha panturrilha, os cachorros maiores não se contêm quando o assunto é arranhar meus membros inferiores, de todas as formas, direções e profundidades possíveis.
O Tommy, um grandão que já foi tema de crônica aqui, é apenas um dos cães com esse hábito. O outro é o Lobinho, um husky que pula o tanto quanto grita. Sempre que me encontra, o peludão dá voltas e voltas em torno de mim, enrolando a coleira na minha perna e colocando o focinho em locais em que ele não devia ser posto.
Fazia tempo que eu não o encontrava, então a saudade falou mais alto do que os horários da agenda. Deixei que Lobinho fizesse seu show, sem perceber que, dessa vez, sua animação teve um custo.
Um corte grande no joelho. Nada alarmante, só digno de um pouco de ardência.
O dono ficou indignado com o próprio animal. “Ele tem que parar com essa brincadeira, é só com você que ele faz essas coisas”, disse, mandando o Lobinho se sentar. Não sabia se ficava lisonjeado ou ofendido com aquela informação. Ele me pediu uma série de desculpas e me convidou para ir à sua casa, lavar a ferida e evitar qualquer risco de infecção.
Quando cheguei na varanda da casa, notei a família do Lobinho curiosa com a minha presença. A esposa do dono foi quem limpou minha ferida, com os dois filhos do casal e uma idosa me observando de cima de uma pequena escada. Um entretenimento papara aanhã de sábado deles. Uma situação fora do costume. Era o que era aquilo para mim também, por mais que um lado meu ainda estivesse se sentindo mal por faltar ao treino.
Eles eram simpáticos. Puxaram assuntos normais como universidade, bairro e rotina. Quando observei a ferida outra vez e fiz uma careta de desgosto, notei que Lobinho me assistia com olhos marejados, choramingando do seu jeito barulhento. Provavelmente havia acabado de entender que eu não estava só de visita para conhecer sua casa. De repente, quaisquer resquícios de dor que eu sentia desapareceram e meu foco se tornou confortá-lo até que se sentisse bem.
Eu não fui nadar naquele dia. Não estudei e também não li qualquer coisa relevante. Fiquei em casa, assisti séries, cochilei e joguei videogame. Minha programação foi transferida para o próximo dia. Não por conta do machucado - não sou assim tão dramático. Eu apenas sentia, não sei bem o porquê, que era o certo a se fazer.
Mesmo sem ter nada de especial, esse foi um dia em que me senti mais vivo do que muitos outros. Nem toda a meditação do mundo teria me colocado mais no presente. Mas, é claro, ainda fui dormir às dez da noite para acordar cedo no domingo seguinte. Nada de exageros também.


