Tem um cachorro bem grande que encontro quase todas as vezes que caminho na rua. Pode ser de manhã, quando estou a caminho da faculdade, ou à noite, já voltando para casa. A chance é sempre alta de encontrar o Tommy e o seu dono passeando pela rua.
O cuidador é um cara de meia idade, de cabelo grisalho curto e óculos arredondados. É magro e com estatura mediana, mas forte o suficiente para segurar o Tommy sempre que o doido pula em cima de mim e quase me derruba. Para uma grande criança como aquele cachorrão é, não há nada mais divertido do que me ver desequilibrado e tentando conciliar os carinhos com a tentativa de permanecer em pé. Ele é um Goldendoodle, uma mistura entre um Golden Retriever com Poodle Gigante, com curtos pelos dourados que se misturavam com a cabeça cumprida.
Outro dia eu andava na minha rua, voltando para casa depois de um dia bem ruim. Marchava de cabeça baixa e em briga contra o sono. Aquela não era a primeira vez que eu reclamava do cansaço e sei agora que não seria a última. Para traduzir esse sentimento às vezes tento escrever poemas, mas em muitas ocasiões me afundar neles só aumenta a minha sobrecarga. A segunda opção é escutar vídeos filosóficos e podcasts científicos, na tentativa de acreditar que, por mais exausto que eu esteja, sempre há espaço para algum aprendizado. A terceira opção é escutar música, o que por vezes consegue ser até mesmo um ato de coragem. Nesta ocasião, estava na segunda alternativa.
Um homem, que não deve ter mais do que trinta anos de idade, começava seu pequeno filme reflexivo com a pergunta: “Não é assim que se vive?”
Já tinha visto aquele vídeo outras vezes, mas nunca com muita atenção. Depois que você começa a escutar tantos ensinamentos assim, eles se tornam repetitivos e passam a valer cada vez menos. Naquele dia, porém, decidi prestei a atenção.
Ele falou sobre as repetições da vida. Sobre o dia de ontem muitas vezes ser igual ao dia que o antecedeu. Nasce, ganha nome, cresce, aprende, estuda, come, chora, escola, amigos, família, ama, acha que ama e depois não ama mais. Trabalha mais, frustra mais, dinheiro, casamento, trabalho, casa, aposenta e morre. As mesmas conversas de sempre, as mesmas comidas de sempre, as mesmas pessoas de sempre. Não é assim que se vive?
Aquilo me atingiu de forma pesada. Pensei se não era dessa forma que eu estava vivendo. Logo eu, que sempre me orgulhei por achar que era diferente dos outros, estava caindo sobre os mesmos pesares que todo mundo. Acorda, estuda, trabalha, casa, come, dorme. Mas por que deveria ser diferente? Se a verdadeira liberdade está em fazer sacrifícios voluntários para ter um grande futuro, por que questionar tanto?
Será que a rotina é tão horrível quanto a gente pensa ou será que só estamos ignorando a beleza dela?
Tommy andava com o dono muitos metros na frente, sem olhar para trás. Ele e o dono não me veriam. Normalmente seria natural que eu continuasse a andar em um ritmo despreocupado. Afinal, eu o vejo quase todos os dias e não falar com ele naquela vez não me faria falta. É rotina, é banal.
Mesmo assim eu comecei correr. Me apressei como se fugisse de alguém, como se estivesse atrasado para algo importante. Em passadas largas e rápidas, me aproximei cada vez mais dos dois. As pessoas me olhavam assustadas: correr nas ruas do Rio de Janeiro significa, em geral, que você está fugindo de um assalto ou que você é o assaltante. Passei do portão da minha casa e apertei ainda mais o passo. Só desacelerei no momento em que percebi que estava próximo o suficiente para fingir que tinha chegado ali naturalmente.
— Tommy! — chamei, tentando disfarçar a voz sem fôlego.
Ele virou o rosto com aquele olhar babão. Como de costume, Tommy parou como uma estátua por alguns breves segundos, até vir com bastante disposição na minha direção. Foi segurado pelo dono com dificuldade, já que o grandão pulava na tentativa de chegar mais próximo de mim.
Eu acariciei seus curtos pelos conforme ele tentava atacar o meu braço, brincando de me arranhar e de me morder. Frequentemente essas brincadeiras faziam com que eu chegasse em casa com pequenos cortes no corpo. Mesmo que o dono brigasse com Tommy para ele se acalmar e sentar, e pedisse uma série de desculpas pelos machucados, eu dizia que estava tudo bem, que não tinha problema.
— Senta, Tommy! — ordenou o dono, balançando a cabeça em decepção. — Ele fica com essas brincadeiras de mal gosto. Sempre que te vê ele fica assim.
“Sempre”, eu repeti na minha cabeça. Eu ri e disse de novo que estava tudo bem, mesmo que um dos arranhões parecesse bem ruim. Afinal, não é assim que se vive?

